
Quando eu era criança, morria de medo de barata. Tinha medo de ficar sozinha, de escuro, de silêncio, de ser a última escolhida do time. Me assustava e ao mesmo tempo ficava ansiosa, com idéia de mudar de escola, mudar de ano, de professores, de colegas de classe.
Quando eu era criança eu achava que existiam pessoas ruins e pessoas boas, e achava que as pessoas não mudavam. Eu achava que existiam dias mais compridos que outros, que momentos bons apagavam os ruins, que ser bonito valia mais do que ser inteligente, que o mundo era enorme.
Quando eu era criança, achava que minha mãe era a mulher mais linda do mundo. Também achava que ela deveria ser cantora, que ela deveria aparecer na TV, que não existia colo mais perfeito no mundo e que nada me deixaria mais tranqüila do que sentir o cheiro do travesseiro dela. Me desesperava as poucas vezes que a vi chorar.
Quando eu era criança não entendia meu pai. Mas naquela época, de certa forma, ele me fascinava.
Quando eu era criança, eu já era eu mesma.
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